Crianças vegetarianas

Maio 1, 2010

Propuseram-me este tema. Resisti, a princípio. Mãe de cinco, três moças e dois rapazes, entre 30 e 15 anos, todos criados com dieta vegetariana naturista, encontro-me hoje numa estranha situação em que sou considerada a vilã da novela pelas três meninas (que optaram por uma alimentação comum) e como a melhor mãe do mundo pelos dois garotos (que, depois da rebeldia adolescente, voltaram a deixar de lado a carne e os excessos industrializados).

Ou seja, como mãe, ando perdendo de 3 a 2.

Mas, como hoje em dia todos são fisicamente saudáveis (e meu lado coruja diria: belíssimos), acho que não errei tanto assim, pelo menos na parte nutricional. E é disso que vou tratar.

Quando digo que criei meus filhos sem carne, é comum ser crivada de perguntas: e as crianças não ficaram desnutridas? fracas? doentes? sem proteína? Claro que não. Como não canso de repetir, além de nociva ao organismo humano a carne é desnecessária. Só entendo seu consumo em caso de total privação de alimentos vegetais — no inverno da Groenlândia, do Alasca ou da Sibéria, por exemplo — e, mesmo assim, como alimento de emergência.

Logo, acredito que nenhuma criança precisa de carne.

Pior ainda quando digo que criei meus filhos sem lhes dar açúcar. Coitadinhos! Nem uma balinha? Não. Nem um bolinho de aniversário? Bolo de aniversário sim, mas de mel (não sou vegana, lembram?) ou de açúcar mascavo. Nem um ovinho de Páscoa? Bom, ganhavam na escola, minha mãe também lhes dava imensos ovos de bom chocolate, mas ficavam na geladeira e iam sendo comidos aos poucos.

Criança nenhuma precisa de carne e de açúcar refinado. Essas coisas não são alimento.

Bom, depois desta introdução meio sem fôlego, vou entrar nos detalhes. Tratarei hoje de como alimentei meus filhos quando bebês.

Como conselho preliminar, recomendo que, antes da criança nascer, procurem um pediatra que seja bem informado e conheça bem a nutrição vegetariana. Isso evitará atritos e permitirá uma atenção melhor aos problemas que surgirem com a criança, sem a desculpa boba “ah, ela está assim porque não come carne”.

Durante os primeiros seis meses, amamentei meus filhos (com exceção da mais velha, coitadinha; na época, eu ainda acreditava em pediatras alopáticos tradicionais e o que me atendia recomendou-me “complementar” a amamentação com leite em pó porque meu leite devia estar “fraco”, já que ela era muito magrinha — e olhem que isso foi antes de eu mudar minha alimentação, ou seja, eu comia carne três vezes por dia!).

Não acreditem nessa bobagem de “leite fraco”. Leite fraco não existe. Quando a mãe não se alimenta bem, o corpo tira de si mesmo tudo o que é preciso para que a criança seja bem nutrida; tira gordura dos tecidos, proteína dos músculos, cálcio dos ossos e dentes e mantém o leite completo. A mãe tem de estar num nível muito alto de desnutrição para seu leite ficar “fraco”.

Mesmo quando tive de voltar a trabalhar antes do bebê completar seis meses, não parei de amamentar. Acrescentei, antes dos seis meses mas sempre a partir do quarto mês, frutas: banana amassada, maçã e pera raladas, mamão amassadinho (mais ou menos nesta ordem). Tive a sorte de encontrar uma ama de leite maravilhosa para cuidar de uma de minhas filhas quando precisei voltar a trabalhar e ela estava só com dois meses.

A partir dos seis meses, além da fruta, acrescentava cereais integrais (arroz, aveia ) muito bem cozidos — no caso do arroz e da aveia em grão, de quatro a cinco horas de cozimento em fogo muito baixo e com bastante água. Ah! Sem sal. Juntava, um a cada refeição, legumes picadinhos como cenoura, chuchu, batata-baroa (mandioquinha), inhame, abóbora. Ou então até mesmo banana ou maçã. Passava tudo na peneira, para não ficar “lisinho” demais. Se não tinha paciência ou tempo, usava o liquidificador, mas sempre amassava uma parte na peneira ou no garfo porque acho que a criança precisa se acostumar com a textura. Lisinho já basta o leite.

Lá pelos sete meses, passava a dar leguminosas, de preferência lentilha, cozida junto com o arroz ou em separado. Entre os feijões, escolhia o azuki, de grão pequenino e fácil de digerir. Também usava ervilha. Feijão preto e de cores eu dava mais tarde, lá pelos nove meses.

Também nesta época, entre os sete e os nove meses, começava a juntar verduras de folha à sopinha: couve, agrião, alface, espinafre, bertalha. Não costumava dar chicória, que é amarga e poucas crianças gostam. E colocava um pouco de azeite na sopa. Eu usava azeite cru; algumas gotas misturadas na sopa. Mas não fazia isso em todas as refeições nem todos os dias.

Ah! Enriquecia as sopinhas com suco de salsa crua: lavava bem, passava na peneira, misturava o suquinho com a sopa. É muito rico em vitamina C e sais minerais. Dá para fazer com outras folhas também, como coentro; já do agrião cru, muito rico e picante, as crianças não costumam gostar. E oferecia, entre as refeições, suquinho de laranja-lima, puro ou misturado com a papinha de fruta. Para quem tem centrífuga, suco de cenoura também é uma boa — só não exagere, porque pode deixar a criança meio amarelada! Eu fazia ralando a cenoura e espremendo num pano, mas dava trabalho demais.

Vocês podem notar que não dava ovo para os bebês. Nunca achei necessário. Crianças com mais de nove meses digerem bem o ovo. Se você se sentir mais segura, misture a gema cozida e amassada à sopinha duas vezes por semana (era o que a pediatra aconselhava e eu não seguia.)

Sempre fiz toda a comida dos meus bebês sem sal e sem açúcar. Só dei sal aos meus filhos depois de um ano e mesmo assim pouquinho (comemos muito pouco sal aqui em casa). A criança, assim, não fica com o paladar viciado.

Como a comida aqui em casa é muito simples (basicamente arroz integral cozido com água e pouco sal, feijão temperado com ervas, legumes, verduras e frutas cozidos ou crus), com um ano, quando nasciam os dentes, a criança já podia comer da nossa comida. Só o arroz eu dava uma “refervura” para ficar mais molinho até que nascessem os dentes de trás.

Tudo isso sem parar de amamentar, viu, pessoal? Só desmamei meus filhos (repito, com exceção da mais velha) por volta dos dois anos de idade.

Agora, conselhos de mãe (aceite ou não, fica a seu critério):

– Não faça cara feia quando der comida ao seu bebê. Se ele achar que você não gosta, não vai querer comer. Não pense: coitadinho, tem de comer esse troço horrível e sem sal. O troço não é horrível e você é que acha insosso, não a criança, cujo único parâmetro de comparação é o leite (aliás, dulcíssimo; leite humano é muito mais doce que leite de vaca. Se duvida, prove.)

– Se a criança não quiser comer, não se preocupe. Pular uma refeição não mata ninguém. O bebê terá mais fome na refeição seguinte.

– Se a criança nunca quer comer com a mãe, talvez seja porque prefere mamar. Aí talvez o melhor seja outra pessoa dar a comida.

– É preciso estar calmo e com vontade de dar de comer à criança. A refeição tem de ser prazerosa tanto para o bebê quanto para você! Quando a gente está estressado, irritado ou com pressa, é melhor que outra pessoa alimente o bebê. Se não houver outra pessoa, tome um chazinho, respire fundo, pense que o neném merece o melhor de você e tente esquecer os problemas nesta hora. Uma pessoa tensa deixa o bebê tenso (eles são muito mais atentos e sensíveis do que a gente pensa) e quem está tenso não consegue comer direito.

Acho que por enquanto está bom. Na próxima, falo das crianças maiorzinhas.

Bom, a criança vem crescendo e já não pode mais ser chamada de bebê. Pega comida no prato da mãe, sai com a titia, com a vovó, já-já vai para a creche, a escolinha, a casa dos amiguinhos. E aí? Como mantê-la vegetariana num mundo de creófagos?

O meu primeiro conselho é que os pais examinem-se profundamente quanto à sua certeza de que o vegetarianismo é a melhor opção — primeiro para si mesmos, depois para os filhos. Quem se propõe a educar uma criança precisa ter alguma segurança de que está fazendo o melhor para ela. Ainda que depois se mude de idéia, na hora de cada decisão é preciso tomá-la com firmeza, principalmente quando se trata de uma decisão tão importante quanto adotar hábitos alimentares diferentes — hábitos estes tão profundamente arraigados na nossa cultura que muita gente se ofende ao ver um vegetariano almoçar…

Digo tudo isso porque nós, vegetarianos, enfrentamos muita oposição quando o filho vai se largando dos nossos braços e entrando no mundo. Esta é a sina de todos os que adotam trajetórias diferentes da maioria, seja na alimentação, na religião, nos hábitos de lazer. E a gente precisa estar preparado e disposto a conviver com isso e a enfrentar as situações mais ou menos desagradáveis que com certeza acontecerão.

E aí? Como manter o filho vegetariano se a vovó, a titia, a babá, a professora, a mãe do coleguinha todas acharão um absurdo uma criança cujos pais, cruéis ou desinformados, impedem que coma carne? Afinal, o fantástico/o jornal nacional/o globo repórter mostram um médico/nutricionista/professor que diz que criança TEM de comer carne, senão fica desnutrida, senão sofre danos no cérebro, nos órgãos!

É preciso conversar com as pessoas próximas. É preciso deixar claro para elas como é importante a decisão que tomamos para nós e nossos filhos. Isso não tem receita. Cada um e cada relação que estabelecemos com cada um são diferentes. É por isso que precisamos ter segurança da decisão que tomamos, para passar esta segurança às pessoas que se relacionarão com os nossos filhos. Nem sempre será possível mandar ou conciliar. Na maioria dos casos, teremos de CONVENCER. E para convencer, é necessário estar convencido.

Depois, é preciso conversar com o próprio filho. Quando a criança começa a se relacionar com outras pessoas fora do lar ou mesmo com pessoas dentro do lar que comem de forma diferente dela, vai perguntar por quê. Mais uma razão para termos segurança da opção que fizemos. A criança precisa sentir como é importante para nós sermos vegetarianos. E isso não se consegue com palavras, só com atitudes.

E, se além de não dar carne ao seu filho, você ainda decidir não lhe dar açúcar refinado, balas, chocolates, danoninhos, biscoitinhos, quissucos, cocacolas e outras maravilhas da “alimentação” infantil, prepare-se, que o chumbo vai ser grosso. Eu que o diga.

Agora, algumas dicas práticas:

Para uma criança, qualquer criança, vegetariana ou não, é importante que a alimentação cotidiana seja rica e saborosa. Rica significa: variada, com nutrientes de todo tipo. E é importante que a comida das crianças seja suficientemente calórica. Se você usa cereais integrais, leguminosas, legumes, verduras e frutas regularmente, provavelmente será. Enriqueça as saladas dos filhos com bom azeite, castanhas ou nozes picadas, tahine (molho árabe de gergelim, muito rico em gorduras de excelente qualidade e proteínas). Sirva leguminosas variadas – feijões de várias cores, grão de bico, ervilha em grão, lentilha. Prepare os legumes com pouca ou nenhuma água (para lhes preservar o sabor), corte e cozinhe cada dia de um jeito diferente (em tirinhas, em rodelas, estrelinhas, no vapor, refogadinho com cebola ou cebolinha, no forno). Criança gosta de comida colorida e variada.

Faça-lhes também sanduíches com tahine, misso (pasta japonesa de soja fermentada, salgada, saborosa e muito nutritiva), tirinhas de cenoura crua, alface picadinho (grudarão no tahine e provavelmente não farão muita lambança). Prepare petiscos fáceis como bolinhos de arroz (arroz integral – pode misturar um pouco de misso ou sal e cebolinha picada, para dar mais gosto – amassado nas mãos e frito em óleo ou assado no forno), bolinhas de banana com aveia (facílimas de fazer: amasse bananas maduras, misture bastante aveia, forme bolinhas, leve ao forno em tabuleiro levemente untado), biscoitões de aveia (misture aveia e água em partes iguais, um pouco de sal, deixe descansar uns dez a vinte minutos, despeje aos poucos numa frigideira ou chapa em fogo baixo, espere assar e soltar – fica crocante, uma delícia).

Eu fazia muito bolo de farinha de arroz: farinha de arroz integral (toste o arroz na frigideira seca até ficar dourado e cheirando bem, deixe esfriar, bata em pequenas quantidades no liquidificador ou use um moedor); coloque a farinha – misturada com sal ou açúcar mascavo, a gosto – numa fôrma com buraco levemente untada com óleo, ponha água até um dedo acima da farinha, deixe a farinha absorver a água toda; tampe a fôrma e asse em banho-maria, no fogão ou no forno. Estando seco e assado, desenforme e sirva.

Tudo isso, com mais uma fruta, serve para o lanche ou a merenda da escola e você pode enfeitar – juntar castanha de caju picada, passas de uva, banana-passa picadinha, pedacinhos de maçã. Use a sua criatividade.

E os almoços, jantares e festas em família? Um conselho: almoce, jante, faça uma boa refeição LOGO ANTES de sair de casa. Assim, com menos fome, a criança (e você também) não vai ficar tentada a se empanturrar de coisas que a gente preferiria que ela não comesse. Outro conselho: se a situação permitir, contribua com alguns pratos – além de você e seu filho terem o que comer, sempre se consegue mostrar aos outros que, sem carne, preparam-se refeições deliciosas.

Há, nos livros e na internet, muita receita de comida vegetariana que agrada às crianças e até para quem segue uma dieta mais naturista, sem industrializados nem açúcar refinado, dá para preparar festas de aniversário capazes de deixar coleguinhas e mães deliciados. Quem me abriu os olhos para isso foi a Sonia Hirsch, com o seu “Sem açúcar, com afeto” – esta autora também tem um livrinho só sobre alimentação para crianças. Como dizem os americanos com os seus “disclaimers”: não tenho nenhuma relação nem ligação com a Sonia e não recebo comissão sobre as vendas dos seus livros; sou apenas uma consumidora satisfeita.

Guia Vegano
Beatriz Medina
Quase 30 anos de vegetarianismo
e-mail: beatriz@guiavegano.com

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