Vegetarianismo e Crianças

Junho 12, 2010

Autora: Meire Gomes*

Artigo publicado no livro ‘Pediatria Radical’ (Ed. Senac – Brasília)

No processo evolutivo da espécie humana ocorreram pressões ambientais que culminaram numa capacidade de aproveitamento de várias fontes de alimento para subsistência. O homem é onívoro, ou seja, é preparado para digerir e absorver alimentos de origem animal e vegetal. Dependendo dos costumes e da disponibilidade de alimentos em uma região, o homem se alimenta de maneiras que podem parecer bizarras para quem está a quilômetros de distância ou em outros países. Dietas que para nós parecem exóticas e até repugnantes, fazem parte da rotina de outros povos. Não temos necessidade de ingerir toda a opção gastronômica do mundo para nos mantermos saudáveis. Uma boa dieta deve fornecer nutrientes em equilíbrio de forma a satisfazer as demandas de nosso organismo mantendo o ritmo de crescimento e desenvolvimento das crianças e os requerimentos nutricionais dos adultos.

Há evidências de que dietas equilibradas, sejam elas vegetarianas ou onívoras, garantem igualmente as necessidades nutricionais do ser humano (1), com discreta vantagem da dieta vegetariana no quesito prevenção de doenças crônico-degenerativas (13). Vegetarianos ou onívoros que arrogam para sua dieta vantagens não vistas na outra estão igualmente desinformados. Nutrição não é religião, é ciência; trabalha-se com evidências e não com crenças. Mais importante do que a pessoa não come é o que ela come.

O índice de anemia é similar entre os dois grupos, contrariando o mito de que vegetarianos são anêmicos (5; 13). Não há consenso se há diferença na expectativa de vida entre os que escolhem ser vegetarianos e os que se mantêm onívoros, mas há evidências de que a qualidade de vida dos vegetarianos seja melhor (2). São pesquisas difíceis de avaliar, pois pessoas vegetarianas habitualmente têm nível sócio-econômico e cultural maior que a média dos indivíduos onívoros e não sabemos até que ponto podemos creditar essa qualidade de vida à dieta ou à maior acessibilidade dos indivíduos vegetarianos aos meios que garantem melhorias na qualidade de vida, como o acesso aos cuidados de médicos e nutricionistas. O fato é que as pessoas devem ter suas escolhas respeitadas e não sofrerem marginalização pela equipe de saúde por suas opções não convencionais. O desconhecimento (4) e a falta de respeito à diversidade gera mitos difíceis de serem trabalhados por nascerem justamente de um meio onde deveriam ser combatidos.

Se a família é vegetariana e manifesta o desejo de criar seus filhos mantendo a rotina alimentar da família, deve ser apoiada e se necessário, uma avaliação com nutricionista pode ser indicada. Não trataremos aqui de dietas restritas como a dos frugívoros (alimentação exclusivamente com frutas) nem das dietas macrobióticas ou outras baseadas em metafísica, pois não há evidências de que sejam bem indicadas para a criança (5; 10).

A motivação para uma dieta vegetariana pode ser religiosa, filosófica (11), uma forma de protesto contra a matança de animais (7), simplesmente uma questão de paladar ou de saúde. Em alguns países a motivação é econômica. Há pessoas que se sentem mais dispostas quando excluem determinados itens de sua dieta, e entre esses itens, as carnes podem fazer parte. Afirmações de que pessoas que comem carne são mais agressivas ou que pessoas vegetarianas são mais pacíficas não têm respaldo científico. No geral, pessoas vegetarianas têm um comportamento “light”, não necessariamente ligado à dieta, mas provavelmente ao seu estilo de vida. A mesma afirmação cabe para pesquisas que mostram que crianças vegetarianas têm QI superior (9), mas a análise metodológica desses estudos não nos parece mostrar validade na conclusão. Não há elementos que levem à conclusão satisfatória de que exista diferença entre o QI de crianças sem desnutrição por tipo de dieta (12). Não julgamos interessante uma família que não tem hábito vegetariano querer impor ao filho uma dieta vegetariana.

1. Quais são os tipos de dietas vegetarianas?

O que há em comum entre as diversas formas de vegetarianismo é a exclusão de todas as carnes, inclusive peixes e frutos do mar. Descreve-se um grupo de semi-vegetarianos, formado por aqueles vegetarianos que eventualmente consomem peixe ou outro tipo de carne.

Vegans: São os vegetarianos restritos. Na sua dieta não há nenhuma fonte de origem animal.

Lacto-vegetarianos: Admitem o uso de leite de vaca e derivados em sua dieta.

Ovo-lacto-vegetarianos: Além do leite de vaca e derivados, admitem o consumo de ovos.

2. Uma criança pode se manter saudável sendo vegetariana?

Sim, como uma criança com dieta onívora também pode se manter saudável, desde que ambas sejam equilibradas, sem deficiência de vitaminas e outros elementos (como ferro e zinco). O estímulo ao aleitamento materno é fundamental para qualquer criança, assim como as medidas de higiene, o estímulo ao desenvolvimento, o afeto da família e os cuidados preventivos de saúde, como as vacinas. Não é só a dieta a responsável por uma infância feliz e saudável (8).

3. Quais os cuidados adicionais para prevenir a deficiência de algum nutriente?

Toda criança, independente da dieta que recebe, deve ter seguimento clínico regular com seu pediatra, que vai avaliar as condições gerais de saúde, seu crescimento e seu desenvolvimento. Crianças com dietas especiais, como crianças com doença celíaca, diabetes, alergias alimentares e crianças vegetarianas (3; 5), podem requerer auxílio de um nutricionista até a família se adequar à rotina necessária para garantir as necessidades da criança.

O crescimento de crianças vegetarianas, inclusive vegans, segundo a American Dietetic Association apoiada pela Academia Americana de Pediatria (5) é similar a de crianças nutridas por outro tipo de dieta que tenha um planejamento igualmente adequado. Dietas com restrições severas podem retardar o crescimento.

A desvantagem da dieta vegetariana na infância se encontra em dietas vegans no primeiro ano de vida, pela dificuldade de se ofertar uma adequada cota calórica. Curiosamente, a cota protéica que é a maior preocupação leiga e de alguns profissionais de saúde, não tem saldo negativo nos vegans. Uma combinação de vegetais e grãos fornece proteínas adequadas para o crescimento de crianças e lactentes. Indicamos um seguimento com nutricionista experiente para adequação calórica quando a família não aceita o uso de leite, derivados e ovos.

A vitamina B12 é encontrada apenas em alimentos de origem animal (8). A deficiência de vitamina B12 é rara entre vegetarianos não-restritos. Muitos produtos como iogurtes, biscoitos, achocolatados, cereais infantis, o leite de soja industrializado e outros alimentos são acrescidos de vitamina B12.O leite de soja em fórmula para lactente seria um grande aliado, mas entre os vegans pode existir resistência ao uso de alimentos produzidos por algumas multinacionais. Há indicação de suplementação desse elemento caso a criança não faça uso de alimentos fortificados.

A suplementação de vitamina D só está indicada nos caso de crianças privadas da luz solar e em vegans de etnia negra. O conteúdo de ferro em dietas vegetarianas é satisfatório. A baixa biodisponibilidade do ferro de origem vegetal é compensada pela ingesta de frutas ácidas, que aumentam a absorção do ferro (5; 6; 13). Não há relato de deficiência de Zinco em crianças vegetarianas além do encontrado na população geral.

A ingestão de cálcio na dieta vegetariana de crianças é tão boa quanto a de crianças com dieta onívora. Em crianças vegans, se não houver consumo adequado de vegetais folhosos escuros e nozes, um suplemento de cálcio pode ser requerido. O consumo de leite e derivados feito pela maioria das pessoas vegetarianas garante a cota necessária de cálcio se a quantidade requerida não for obtida através dos folhosos.

4. Onde encontro receitas?

4.1 – Livros:

Cozinha Vegetariana

Autora: Carolline Bergerot

Editora Cultrix

Lar Vegetariano

Autores: Ivonete do Amaral Dias Nakashima e colaboradores

Editora Cultrix

4.2 – Internet:

http://www.vegetarianos.com.br/receitas.htm

http://www.vegetarianismo.com.br/

http://www.livrodereceitas.com/vegetarianas/index.html

http://br.geocities.com/vv_receitas/index.htm

http://www.vidyayoga.org/vegetarianismo/receitas/

Algumas referências:

(1) http://www.eatright.org/cps/rde/xchg/ada/hs.xsl/home_4635_ENU_HTML.htm

(2) http://www.eatright.org/cps/rde/xchg/ada/hs.xsl/nutrition_8053_ENU_HTML.htm

(3) http://www.eatright.org/cps/rde/xchg/ada/hs.xsl/home_4051_ENU_HTML.htm

(4) http://www.centrovegetariano.org/index.php?article_id=342

(5) Manual of pediatric nutrition, 4th edition – American Academy of Pediatrics

(6) Adolescent Vegetarians: How Well Do Their Dietary Patterns Meet the Healthy People 2010 Objectives? Perry CL, McGuire MT, Neumark-Sztainer D, Story M. Arch Pediatr Adolesc Med. 2002;156:431–437

(7) The vision of vegetarianism and peace: Rabbi Kook on the ethical treatment of animals History of the Human Sciences 2004 17: 69-101

(8) American Journal of Clinical Nutrition, Vol. 78, No. 1, 3-6, July 2003

(9) BMJ 2007;334:216-217

(10) Canadian Medical Association Journal, Vol 156, Issue 10 1454-1455

(11) Amato, PR, Partridge SA. The new vegetarians: Promoting Health and Protecting Life. New York, 1989

(12) Dwyer JT, Miller LG, Arduino NL, et al.Mental age and IQ od predomnantly vegetarian children. J Am Diet Assoc

(13) http://www.scielo.br/pdf/rbepid/v9n1/11.pdf

via Vegetarianismo e Crianças « ♦ SALADA MÉDICA ♦.

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One Response to “Vegetarianismo e Crianças”

  1. Eliene Says:

    Texto maravilhoso… Uma profissional que não defende apenas seu ponto de vista, uma profissional completa… Eu realmente adorei cada palavra que escreveu, muito obrigada pelas informações. Li também o seu TCC… Achei fantástico. Eu sou estudante de medicina e, por motivos pessoais, resolvi estudar um pouco mais sobre vegetarianismo na faixa etária pediátrica. Você, por acaso, tem algum trabalho para me indicar falando sobre a retirada do leite (fórmula) de uma criança com menos de 1 ano? Pois, segundo os meus conhecimentos limitados e o que eu li no seu TCC, o indicado é até, pelo menos 2 anos. Mas conheço mães, que dizem ser vegetarianas, que querem tirar o leite do filho nesse período. E eu, apesar de tudo, não consigo concordar com essa conduta.
    Muito obrigada…


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