Alergias e Intolerâncias Alimentares

Agosto 4, 2010

Alimentar crianças, sobretudo nas idades mais precoces é uma tarefa difícil. Mas quando a criança sofre de alergias ou qualquer tipo de intolerância alimentar, o processo torna-se, em simultâneo, complexo, extremamente desgastante e altamente responsável. O estado de saúde  da criança, e até a sua vida, pode estar em causa, em cada produto, em cada colher, ainda que nas quantidades mais baixas… Pois há riscos. Sérios riscos.
E, como se não bastasse, a oferta em Portugal é escassa: faltam ideias e produtos também. E faltam também preços acessíveis que permitam suportar o orçamento doméstico e tornar exequível a alimentação especial. O resultado não poderia ser pior: uma alimentação monótona e pouco prática que cansa a criança e a impede de um crescente desenvolvimento palativo, e consequente educação alimentar, mas também a pressiona por factores psicossociais como a ansiedade da família e a difícil integração na sociedade, nomeadamente da creceh, aspectos que se enraizam a médio prazo e desgastam sobretudo o convívio familiar. Portanto, os critérios alimentares extinguem-se muito antes de seres implementados e são necessárias medidas que apoiem esta Alimentação…urgentemente!
Neste artigo falarei um pouco naquilo que pode ser feito na Alimentação das crianças alérgicas /intolerantes. Tentarei ser prática respeitando sempre a delicada, e responsável tarefa, que algumas progenitoras me colocam quando me procuram.
Há 3 aspectos fundamentais, logo à partida, a ter em consideração nesta abordagem:
– O tipo de inadaptabilidade alimentar: alergia ou intolerância ? E este aspecto é vital pois as alergias são extremamente meticulosas e cuja hipersensibilidade pode ser microscópica. A intolerância é mais permeável e não exige um controlo tão rigoroso na análise do rótulo alimentar. Portanto, cuidado na adopção de conselhos de amigos, e familiares, pois nem sempre se enquadram no quadro clínico que a sua criança apresenta.
– Outro aspecto fatídico, é o alimento alvo que oferece perigo à criança, sabendo-se, contudo, que uma criança susceptível a determinado alimento poderá ser, na maior parte dos casos, vulnerável a outros alimentos com carácter alérgeno (ex. soja, ovo, amendoim…). Este aspecto adquire uma dimensão básica quando nos apercebemos que alguns destes ingredientes, ainda que em pequenas quantidades, são utilizados como adjuvantes tecnológicos apenas para melhorar a textura dos produtos alimentares processados. O resultado: aumento da restrição dos alimentos a introduzir na dieta infantil…
– Por último, e de pertinência acentuada, é a idade da criança, sobretudo porque é preciso respeitar também as suas exigentes especificidades nutricionais face a todas as limitações impostas pelo médico assistente e pelo mercado também!
Portanto, penso que retratados estes cruciais aspectos e esperando que a leitora ainda se sinta motivada a continuar a ler depois deste relato tão desmotivante :-)), é pois altura de esquematizar o que, efectivamente, é possível fazer:

Alergias alimentares

Leite de vaca
Se representa o alimento a evitar, e estando o bebé já desmamado, substitua-o por leites de origem vegetal: de soja, de aveia, de amêndoa, de arroz ou millet. Saiba contudo que a soja é também um alimento alérgeno e inadequado para crianças com idade inferior a 12 meses, pela sua difícil digestibilidade. Além disso não deve ser dado de forma contínua, razões pelas quais o consumo infantil deste alimento, nas suas diferentes formas de apresentação, deve ser bem avaliado. É pois importante que adquira papas sem leite na sua composição e as prepare com estes leites, de origem vegetal. Deve igualmente ter em atenção a proibição de iogurtes, bolachas e pão, que contenham leite, ou vestígios deste (soro, manteiga) na sua constituição. Existe alguma variedade de bolachas biológicas que pode adquirir e de pão também. Os iogurtes, no geral, estão todos desaconselhados pelo que considero interessante o consumo de kefir*, elaborado a partir de um leite vegetal. Contudo, desconheço questões sensoriais como o sabor, tão importante neste processo de aprendizagem alimentar… A única gordura permitida para cozinhar é o azeite , excepcional também pelas suas propriedades nutricionais.
A alimentação infantil, neste caso, fica sufocadamente restrita. A solução passa, sobretudo, pela adopção de uma dieta o mais natural possível, à base de fruta, cereais e outras fontes de proteína animal, como o ovo, se o pediatra ou alergologista o permitir… Chamo ainda a atenção para o facto de se impedir, a todo o custo, a privação da ingestão de cálcio , exigente nas idades mais precoces e comum em crianças com alergia à PLV . É pois importante complementar a alimentação com legumes verdes como o bróculos ou o agrião, muito ricos neste mineral.

Ovo
Existente em grande parte nos alimentos processados, é mais fácil de o detectar, e evitar. A má notícia é que este tipo de alergia, na maior parte dos casos, veio para ficar…ao contrário das restantes. De evitar sobretudo os alimentos processados, como por exemplo bolachas, croissants e … as festas! Forneça uma simpática lista dos alimentos a evitar a quem convidar o/a seu filhote/a … Afinal numa idade mais avançada a criança está sensibilizada, e deve, integrar-se socialmente. É importante.Intolerâncias alimentares

Lactose
Presente nos produtos lácteos, assusta as mamãs que desconhecem que a fermentação anula o seu efeito, já que as bactérias fermentativas transformam este açúcar natural em ácido láctico, aceite pelo organismo. Infelizmente, tomei recentemente conhecimento, de 2 situações que prejudicam os intolerantes à lactose: a) os industriais interrompem a fermentação, antes de terminar, garantindo assim menor acidez no iogurte . Resultado: restam vestígios de lactose!; b) para tornar os iogurtes mais doces, de uma forma mais saudável, adicionam lactose como substituinte do açúcar. Qualquer dia despeço-me deste cargo! Portanto esqueçam que a lactose se transforma em ácido láctico e protejam-se, evitando os iogurtes à base de leite de vaca. Alterne com os de soja , após os 12 meses, e com papinhas de fruta. E recorram, favoravelmente, aos leites comerciais 0% lactose que, apesar de caros, são alternativas interessantes com que poderá cozinhar também.

Glúten
Este ingrediente, dentro das intolerâncias, e portanto de menor impacto, representa contudo um verdadeiro obstáculo. Mais uma vez, e tal como o leite de vaca, porque representa um alimento que contribui para ajustar a textura de imensos alimentos processados. De evitar, a todo o custo, o trigo, o centeio e na dúvida, a aveia. Recorra unicamente aos alimentos que tenham milho na sua composição. E claro está, mais uma vez, cuidado com as bolachas e o pão. Na minha opinião, recomendo, neste tipo de intolerância, que faça em casa ou encomende em padarias de confiança. Alguns produtos rotulados sem glúten oferecem-me pouca confiança: a substituição tecnológica de glúten veicula outros ingredientes, sobretudo EE’ s, pouco interessantes e também de efeito negativo no organismo infantil. A boa notícia é que este tipo de intolerância desaparece nos 1ºs anos de vida, na maior parte dos casos…

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