Entrevista a Irene Franco, mãe de uma criança vegana

Irene Franco é vegana e mãe de Lara Franco Neves, uma menina com 2 anos e 10 meses de idade (em Dezembro de 2005). Irene era ovo-lacto-vegetariano quando engravidou de Lara e manteve esse regime durante os primeiros meses de vida da filha. Ao descobrir a origem dos ovos e do leite tornou-se vegana, juntamente com o seu marido, e adoptou o mesmo regime alimentar para a sua filha.

HÁBITOS DA MÃE DURANTE A GRAVIDEZ

1- Durante a gravidez que tipo de alimentação fizeste?
Irene: Ovo-lacto-vegetariana.

2- Houve alguma alteração em relação ao que costumas comer normalmente?
Irene: Não houve alteração em relação ao regime ovo-lacto-vegetariano que seguia na altura.

3- Tomaste algum tipo de suplementos (como por exemplo B12)?
Irene: Sim, os que tomam todas as grávidas: ácido fólico desde o início e ferro a partir dos 6 meses, mas de marcas para veganos.

4- Tiveste alguns cuidados especiais de saúde durante esse período?
Irene: Sim. Aboli o álcool e o café. Continuei com o Yoga e fiz hidroginástica.

5- Estiveste doente ou tiveste problemas de enjoo matinal ou de outro tipo?
Irene: Nunca estive doente, mas enjoei bastante nos primeiros dois meses. Depois fiquei óptima.

6- Foste a algum médico?
Irene: Sim, às consultas de rotina das grávidas.

7- Tomaste algum medicamento? Que tipo e para quê?
Irene: Não. Não necessitei.

8- Informaste-te em algum lado sobre que cuidados extras ou alterações de dieta deverias ter? Onde?
Irene: Provavelmente sim, mas não me recordo onde.

ALIMENTAÇÃO DO BEBÉ

1- A criança sempre seguiu uma alimentação vegana?
Irene: Não. Seguiu sempre o regime dos pais. Primeiro ovo-lacto-vegetariano e depois vegano.

2- Quais os maiores obstáculos que encontraste ao teres optado por uma alimentação vegana para a tua filha?
Irene: Comer em restaurantes e em eventos sociais, mas hoje já é fácil.

3- Deste só o teu leite ao bebé, ou de algum outro tipo? Qual? Normal ou havia específico para bebés?
Irene: Amamentei o máximo que consegui, que foi até aos 8 meses. Num curto período bebeu leite de crescimento de vaca alternado com “leite” de crescimento de soja e depois bebida de aveia, arroz e amêndoa.

4- Com que idade começou a comer outro tipo de comida? Que género de coisas? Como foi feita a transição?
Irene: Começou a diversificação alimentar aos 6 meses, quando demonstrou interesse por sólidos. Começou pelas sopas de legumes, papas de cereais e purés de fruta. Fui introduzindo os alimentos de forma progressiva (primeiro apenas uma refeição “sólida” por dia, depois duas…). Procurei sempre providenciar à Lara uma alimentação o mais diversificada possível.

5- Houve alguma oposição por parte da família ou dos médicos pelo facto de dares uma alimentação vegana à criança? Quais as reacções e como lidaste com isso?
Irene: Sim, a pediatra que a seguia na altura inicialmente disse que era impensável mas quando sentiu os pais tão seguros e informados e vendo o excelente desenvolvimento psico-motor da Lara nunca mais disse nada. Acho que ela própria aprendeu qualquer coisa. Com a família o processo foi idêntico. A saúde da Lara fala por si.

PRODUTOS VEGANOS E SAÚDE
1- Foi difícil encontrar produtos para bébé/crianças veganas (fraldas, leite, papas, pomadas, champô, etc)?
Irene: Não, o pior são os preços…

2- A tua filha tomou as vacinas? Qual foi a solução que encontraste em relação a este assunto, por vezes tão polémico e controverso?
Irene: Sim, tomou. Hoje teria feito diferente mas na altura não dispunha de informação que me permitisse estar segura em relação à decisão de não dar vacinas.

3- A criança já esteve doente? Com o quê? Como o curaste?
Irene: Até agora só teve duas constipações com alguma febre. Curou-se com repouso, banhos de água tépida, alimentação sem proteínas e à base de sumos. Utilizámos medicação homeopática (já com uma nova médica).

4- Que tipo de medicamentos geralmente a criança toma: naturais ou químicos? Porquê?
Irene: Em geral não toma nenhum medicamento.

5- Em relação à vitamina B12 tens alguma atenção especial? Qual/quais?
Irene: Sim. Toma B12 em forma sublingual (vegana) e incluímos em alguns pratos flocos de levedura [de cerveja] enriquecida com B12.

6- Em relação a outros nutrientes há mais algum que te preocupe em particular? Porquê e que soluções encontras?
Irene: Não. Desde que mantenha uma alimentação variada e equilibrada (à base de cereais, legumes, nozes, leguminosas, frutos e soja em quantidade moderada) terá os nutrientes de que necessita.

A CRIANÇA NA SOCIEDADE

1- Os pais falam à criança sobre os princípios éticos do veganismo? Como? Como vê a criança a forma como outras pessoas se alimentam ou a sua relação em geral com os animais?
Irene: Sim. Estimulamos o respeito pelos animais e pela natureza e uma responsabilidade ecológica. Dizemos-lhe que gostamos dos animais vivos e em liberdade, pois presos ficam tristes. Apontamos a importância da reciclagem, de poupar água…. A Lara já reparou que os avós comem carne e peixe e nós não. Tentamos transmitir-lhe que há pessoas que comem animais e outras não mas sem fazer julgamentos.

2- Na escola, que dificuldades a criança encontrou na relação com colegas e professores?
Irene: Não se aplica. A Lara está numa escola onde a alimentação base é ovo-lacto-vegetariana mas pode ser vegana para as crianças que não comam ovos ou lacticínios.

3- Como fazes quando a tua filha é convidado para festas, por exemplo aniversários de outras crianças, onde praticamente toda a comida não é vegana?
Irene: Dada a sua idade ainda não aconteceu mas nessa ocasião especial, para que não se sinta tão diferente dos outros, poderá comer alimentos que tenham algum ingrediente de origem animal, mas carne e peixe não.

4- A criança alguma vez tentou rejeitar o veganismo? Porquê?
Irene: Não, nunca aconteceu.

5- A criança alguma vez pediu algo, por influência da publicidade, da televisão, das outras crianças, que seja contra a filosofia do veganismo (por exemplo: gelado de leite, comer hamburguer no MacDonnalds, produto que é testado em animais, etc.)? Como reagiste e solucionaste esse(s) pedido(s)?
Irene: Sim. Uma vez viu uma criança a comer um gelado e também quis. Oferecemos-lhe uma alternativa vegana e ela ficou satisfeita.

6- Consideras a tua filha é uma criança saudável e bem integrada no meio que o envolve? O veganismo dificultou ou favoreceu isso de alguma forma?
Irene: Sim, é uma criança muito saudável e bem integrada. Acho que o veganismo contribuiu positivamente para a sua saúde, mas prevejo que lhe venha a colocar algumas dificuldades a nível social.

7- Consideras que a tua filha, por ser vegana, é uma criança diferente daquela que seria se fosse omnívora? Em que aspectos e porquê?
Irene: Sim. Estou convicta de que goza de uma melhor saúde e que irá crescer mais consciente da sua responsabilidade em relação a todo o meio envolvente.

8- Que sugestões e conselhos darias a pais ou futuros pais veganos?
Irene: – Que procurem encontrar um equilíbrio entre os seus princípios éticos e a necessidade de integração social da criança. – Agir com coerência mas não com inflexibilidade.

– Ajudá-la a desenvolver a auto-confiança para que crie uma estrutura interna capaz de contornar eventuais dificuldades de integração.

– Não lhe incutir sentimentos de superioridade moral e/ou desprezo por outras formas de estar na vida, ainda que muito diferentes das nossas – Estimulá-la a agir com base no amor.

 

 

Entrevista a Sónia Cruz, mãe vegetariana

Sónia Cruz é vegetariana e mãe de André Dinis, um menino com 1 ano e 11 meses de idade (em Junho de 2007). Sónia era ovo-lacto-vegetariano quando engravidou e adoptou esse tipo de alimentação também para o seu filho.

HÁBITOS DA MÃE DURANTE A GRAVIDEZ

Durante a gravidez que tipo de alimentação fizeste?
Durante a gravidez fiz uma alimentação ovo-lacto-vegetariana, embora por uma ou duas ocasiões tenha comido peixe.

Houve alguma alteração em relação ao que costumas comer normalmente?
Hoje em dia já sou completamente vegetariana, mas naquela altura não tinha tanta informação como actualmente, no entanto, não me recordo de ter feito alguma alteração no que comia, exceptuando o facto de querer manter um peso ideal durante a gravidez para não ter problemas de saúde que nos pudessem afectar aos dois.

Tomaste algum tipo de suplementos (como por exemplo B12)?
Receitaram-me suplementos vitamínicos mas só consegui tomar magnésio e ferro no último trimestre, como medida preventiva, sobretudo para evitar um parto prematuro. Não consegui tomar outros suplementos porque me enjoavam.

Tiveste alguns cuidados especiais de saúde durante esse período?
Tentei não engordar muito mas tive realmente algum apetite extra e engordei mais do que queria (quase vinte quilos). No entanto, como sou alta, muita gente nem sabia que estava grávida, julgavam que estava só mais rechonchudinha. Felizmente, recuperei bem passados uns meses após o nascimento.

Estiveste doente ou tiveste problemas de enjoo matinal ou de outro tipo?
Estive constipada na altura do Natal porque, nessa altura, como é normal, estive em contacto com mais pessoas, entre as quais algumas que estavam a “chocar” uma constipação e me contagiaram.
(É que muita gente não sabe que pode contagiar uma doença sem ter sintomas visíveis, que só se manifestam passados uns dias mas que, entretanto, já passaram a doença às pessoas com quem contactaram. Faço esta ressalva para dizer que há muita gente que gosta de dar muitos beijinhos aos bebés, por não saberem que podem contagiá-los gravemente com esse gesto bem-intencionado mas perigoso para a saúde de uma criança pequena.)
Tive que tomar paracetamol, receitada pela médica, para não evoluir para algo mais grave. Tenho um “sopro” no coração congénito (ou seja, desde que nasci) e tenho sempre que ter cuidado com constipações. Durante a gravidez, descobri que, além do sopro, tenho insuficiência cardíaca e, por isso, tive que ter cuidados extra para não me cansar em demasia, por isso foi uma gravidez de risco. De resto, fiz uma vida perfeitamente normal e, embora às vezes cansada, muito feliz por ver crescer uma vida dentro de mim. No primeiro trimestre tive enjoos sobretudo devido aos cheiros que me rodeavam, fosse por fumadores ou por alguém com um perfume mais intenso. Também descobri que, se falasse com algumas pessoas que não me agradavam, ficava enjoada e passei a evitá-las, pelo que passou o enjoo. Parece engraçado enjoar pessoas, mas é verdade!

Foste acompanhada por algum médico?
Fui acompanhada por uma médica obstetra do meu centro de saúde até descobrir a minha própria médica de família do mesmo centro (que eu não tinha conhecido até então), que era mais agradável – dispunha-se pacientemente a ouvir e a responder às minhas dúvidas e a vigiar a minha saúde e a do bebé cuidadosamente. Desde então, tem sido ela a seguir-nos aos dois. No entanto, fui encaminhada por ela para a maternidade, no último trimestre, para prevenir complicações no parto. Também na maternidade decidiram que o parto iria ser feito por cesariana, com anestesia regional (epidural), uma vez que eu (e o bebé) correríamos risco de vida se assim não fosse (devido aos meus problemas cardíacos). Um dos efeitos da anestesia foi ter ficado paralisada da cintura para baixo durante praticamente dois dias, mas não larguei o meu bebé por um segundo. Dormia com ele na minha cama para o amamentar e as enfermeiras ajudavam com o que fosse necessário. Acredito que o meu bebé estava sempre sossegadinho por isso mesmo, por estar sempre comigo e ser amamentado, ao contrário dos outros bebés que eu via que não estavam a ser amamentados (porque as mães achavam que não tinham leite, não sabendo que quanto mais uma mulher amamenta, mais leite vai produzir) ou porque estavam longe das suas mães. Embora possa haver casos em que é possível que uma mãe não tenha leite ou não possa amamentar – casos de doenças, por exemplo – infelizmente vê-se muitas mães que não sabem ou não querem saber as vantagens de amamentar os seus filhos e que todo o sacrifício que fizermos por eles em crianças, darão bons frutos no futuro. Uma criança que é amamentada e, mais tarde, alimentada de forma saudável, será uma criança e um adulto saudável, o que será um descanso (já para não falar em poupança em despesas de saúde) para os seus pais. Todo o sacrifício que fizermos pelos nossos filhos vale bem a pena. Eu tive muita sorte porque aprendi muito sobre como cuidar do meu filho e sobre cuidados a ter na amamentação, na maternidade.

Informaste-te em algum lado sobre que cuidados extras ou alterações de dieta deverias ter? Onde?
Como a médica obstetra que me seguiu até ao segundo trimestre não era muito atenciosa, tive que procurar leituras que me elucidassem sobre o que fazer. A partir do momento em que fui seguida pela minha médica de família e pelos médicos da maternidade, fui mais ajudada e tudo se tornou mais fácil.

Amamentaste o teu filho durante quanto tempo? Durante o período em que amamentaste tiveste alguns cuidados especiais com a tua alimentação ou saúde? Quais?
Continuo a amamentar, para minha grande alegria. Quando o bebé nasceu, deram-lhe o biberão uma vez porque eu ainda estava a recuperar, o que me custou muito porque tinha realmente muita vontade em dar de mamar. Só passado cerca de uma hora é que pude abraçar o meu pequenino e dar-lhe de mamar quando já estávamos instalados no nosso quarto. Para mim, deu-me mais jeito amamentar deitada, e, embora haja quem contradiga esta posição por poder provocar otites no bebé, felizmente nunca tive problemas nestes dois anos. Quanto à minha alimentação após o nascimento, sim, tive grandes cuidados para evitar alimentos que o pudessem prejudicar. Os alimentos que podem provocar alergias são sobretudo os de origem animal – ovos, leite de vaca, marisco – mas também o chocolate deve ser evitado, assim como os morangos, além de que há alimentos que não se devem comer muito por terem um sabor forte que pode afectar o sabor do leite e fazer com que o bebé o recuse, tais como alho, cebola, espargos, que me recorde. Também vi que não podia abusar das leguminosas (feijão, grão), por serem fortes para os intestinos do bebé, mesmo através do leite materno. No entanto, as lentilhas – descobri isso mais tarde – são boas para ajudar à secreção do leite. Descobri também que a soja ajudava a barriguinha do André a funcionar melhor. Tentei evitar tudo o que lhe pudesse fazer mal, o que fui aprendendo conforme as noites mal ou bem passadas, já que ele chorava mais com determinados alimentos que eu comia. Também a canela, tal como o café e o chocolate, é um estimulante e, como tal, deve ser evitada enquanto se amamenta. Contudo, após o primeiro ano, o organismo do bebé já vai podendo aguentar mais coisas que até então não podia comer e, assim, também a mãe pode variar mais os seus pratos. No entanto, já vi mães a amamentar durante muito tempo e que os bebés passavam bem com coisas com que o meu passava mal, é tudo uma questão de ver o que é melhor para si e para o seu bebé.
O que importa é que o bebé mame sempre que quiser, que não lhe dêem biberão ou chupeta no primeiro mês de vida, para que ele não prefira o biberão (por ser mais fácil de mamar do que o peito da mãe, e a chupeta porque engana a fome e vai fazer com que o bebé mame menos, o que vai provocar uma diminuição da produção do leite materno) e que a mãe, além de manter uma boa alimentação, beba muita água todos os dias.

ALIMENTAÇÃO DO BÉBÉ

A criança sempre seguiu uma alimentação vegetariana?
Sim, o meu filho tem sempre seguido uma dieta lacto-vegetariana. Experimentei dar-lhe ovo por duas ou três vezes mas ele recusou sempre e decidi não insistir mais, até porque é muito raro eu comer ovos. Quanto ao leite, bebe do meu (mama). Gosta de iogurtes e isso dou-lhe, tendo sempre atenção aos ingredientes para além dos produtos lácteos porque já vi iogurtes para crianças com óleo de peixe. Por acaso, mais tarde, reparei que a mesma marca de iogurtes deixou de incluir óleo de peixe nos ingredientes, o que deve querer dizer que com alguma coisa se devem preocupar. Já é um começo. Devo, ainda, dizer que eu, pessoalmente, não compro iogurtes à base de leite, nem uso leite de vaca, nem manteiga animal, o que acontece é que muitas vezes nos oferecem esses produtos e eu com muita alegria os aceito, já que são dados com todo o coração. As pessoas já sabem que sou vegetariana, mas ainda não compreendem o porquê de não comer ovos ou produtos lácteos e, para não ser considerada mal-educada, aceito, até porque não os tenho que comer à frente das pessoas que os dão. Os iogurtes dou ao André e, se vejo que é muita coisa só para ele, dou a outras pessoas que conheço e que sei que também precisam. Às vezes temos que ser um bocadinho flexíveis. É claro que nem sempre isto pode ser assim e aí, sim, somos, infelizmente, considerados mal-educados ou esquisitos por não aceitar determinada coisa e termos que dizer que não um milhão de vezes até os outros perceberem que não queremos mesmo por ir contra os nossos princípios.

Quais os maiores obstáculos que encontraste ao teres optado por uma alimentação vegana para o teu filho?
Os maiores obstáculos que encontro no respeitante ao meu filho são praticamente os mesmos que encontro para mim mesma. Felizmente, já vai sendo mais fácil encontrar produtos vegetarianos em supermercados e, claro, temos que ter mil olhos para ver se não há ingredientes não vegetarianos nos chamados produtos naturais. Quanto à comida do André, adaptei a minha vida de modo a poder sempre ter comida preparada em casa para poder levar para fora todos os dias – faço em maiores quantidades e meto no frigorífico – desde a comida sólida a sopas e, às vezes, purés de fruta, embora estes últimos eu compre já preparados de uma marca para comida de bebé conhecida. De resto, infelizmente, se eu quiser comida preparada comprada no supermercado e adaptada a vegetarianos, simplesmente há muito pouca oferta – sopas de legumes (que têm um sabor artificial) e purés de fruta foi o que encontrei até agora. A maior oferta é em bolachas e doces – devem achar que os vegetarianos só comem bolachas!:)
Quanto à parte psicológica da questão, quando me criticam por sermos vegetarianos, tento demonstrar que tanto eu como o meu filho estamos perfeitamente saudáveis, além de que – muitas vezes – as pessoas não compreendem porque é que eu, sendo vegetariana, tenho que “obrigar” o meu filho a sê-lo também. Respondo-lhes que, da mesma forma que uma pessoa carnívora não vai dar uma alimentação diferente da sua ao seu filho, também eu não vou dar algo contra a minha maneira de estar na vida ao meu filho. Pela mesma ordem de ideias os carnívoros estão a obrigar os seus filhos a comer carne. Infelizmente há muitos preconceitos e as pessoas não vêem que, da mesma forma que julgam, podem ser julgados. Está perfeitamente provado que uma alimentação vegetariana equilibrada é melhor do que uma alimentação à base de carne. Também costumo dizer que estou a pensar na saúde do meu filho com 60 ou 70 anos de antecedência – para não vir a sofrer de excesso de peso, diabetes, tensão alta e alguns tipos de cancro, entre outras doenças associadas ao consumo de carne.
No entanto, ainda tenho que praticar a minha paciência, porque fico, realmente, muito chateada quando me criticam e dizem que os animais foram feitos para serem comidos, entre outras coisas que um vegetariano ouve no seu dia-a-dia.

Deste só o teu leite ao bebé, ou de algum outro tipo? Qual? Normal ou havia específico para bebés?
Como disse, ainda estou a amamentar. No entanto, uma coisa que notei no meu filho foi que, desde que deixei de beber leite de vaca, ele passou a dormir melhor. Foi com o tempo e por tentativas que cheguei a essa conclusão. Desde então só bebo leite de soja e as noites já são calminhas. É que ele contorcia-se todo durante a noite e acordava muitas vezes, sem eu perceber o que é que eu lhe tinha dado que lhe pudesse fazer mal. Foi descoberto o mistério! Também já lhe dei leite de soja e ele gosta (embora prefira o da mãe :))

Com que idade começou a comer outro tipo de comida? Que género de coisas? Como foi feita a transição?
Amamentei exclusivamente até aos 6 meses, contudo, se estivesse mais bem informada, teria dado só peito por mais tempo, sem lhe dar comida até ele mostrar vontade para comer, visto que a amamentação exclusiva traz grandes benefícios ao bebé, em termos de prevenção de diabetes, obesidade, asma e alergias, entre outras vantagens. De qualquer forma, não tive problemas nenhuns com as primeiras comidinhas do André. Segui as indicações de livros, médica e enfermeiros e adaptei-as à nossa comida e à nossa vida. Comecei a dar-lhe purezinhos caseiros de pêra, maçã cozida (banana não, porque ele ficava mal da barriguinha), cenoura, batata – um ingrediente de cada vez durante uma semana para ver a reacção do bebé, conforme me foi indicado. Obviamente, quando chegou à idade dita adequada para comer carne ou peixe, ou ovos, eu simplesmente não lhe dei. Por sorte tenho uma boa quantidade de livros de pediatria, sobretudo Ingleses, que me deram informações detalhadas quanto aos ingredientes a usar em cada idade, para poder variar mais as suas ementas.
De resto, o André não recusava as comidas que lhe dava. A princípio não gostava muito da cenoura mas, como a uso muito frequentemente (nas sopas) acabou por habituar-se ao sabor. Até agora, só me recusou os ovos e as beterrabas e adora lentilhas, é mesmo guloso por lentilhas!

PRODUTOS VEGANOS E SAÚDE

Foi difícil encontrar produtos alternativos para bebé (fraldas, leite, papas, pomadas, champô, etc)?
Infelizmente, como mãe solteira, tenho que estabelecer determinadas prioridades. Há algumas marcas de produtos que tento usar por saber que são contra testes em animais, (champôs, cremes) mas ainda não encontrei outros produtos necessários à higiene diária do bebé (toalhetes, soro fisiológico, álcool a 70º, fraldas, escova de dentes e dentífrico para bebés, por exemplo) que sejam adequados a veganos, de preço razoável e práticos. Também acho que as fraldas de pano, que as nossas mães usavam connosco, não são nada práticas nem tão higiénicas como as descartáveis. Além disso, ao ter que lavá-las em grande quantidade (enorme!), também seria prejudicial ao ambiente em termos de água gasta em lavagens, isto mesmo usando um produto vegano como detergente. É uma área que ainda precisa de ser bastante melhorada, a de produtos para bebés.

O teu filho é acompanhado por algum pediatra? Como reagem os médicos ao facto da criança ser vegetariana?
Como já disse, o meu bebé é acompanhado pela nossa médica de família, que, além de ter a especialidade de pediatria, é amorosa, muito humana e cuidadosa com o que faz. No entanto, deve haver muito poucos médicos (a não ser alguns nutricionistas) com conhecimentos suficientes sobre o vegetarianismo e veganismo para poderem ajudar os seus pacientes, pelo que tenho sempre que me socorrer de outras fontes (livros, internet, outros pais vegetarianos) para poder dar uma alimentação saudável ao meu filho. Mesmo assim, até tenho encontrado profissionais da saúde (médicos, enfermeiros) compreensivos que não levantaram problemas quanto a isso. Os que criticam acabam por ver que o meu filho está a crescer muito bem e acabam por se render às evidências.

A criança já esteve doente? Com o quê? Como o curaste?
Na altura do Natal, já vi que tenho que ter mais cuidado, porque há uma maior concentração de gente e geralmente em espaços fechados (devido ao frio da época), o que propicia os contágios. O André ficou com tosse aos 6 meses (no Natal) e teve que fazer nebulizações durante um mês (máscara de oxigénio com umas gotas de um broncodilatador ou soro fisiológico, várias vezes ao dia) de forma a evitar que a constipação pudesse evoluir para asma. No ano seguinte, no Natal novamente, ficou outra vez com tosse mas, desta vez, só tive que lhe dar um xarope para favorecer a expectoração e vigiá-lo para que não se tornasse mais grave. Nestas idades, qualquer pequena coisa pode tornar-se muito grave porque um bebé não tem as mesmas resistências que um adulto. .

Que tipo de medicamentos geralmente a criança toma: naturais ou químicos? Porquê?
Quando o André tinha cólicas, nos primeiros meses, descobri um produto à base de plantas que era eficaz. No entanto, lá está, não pude continuar a comprá-o por ser mais caro que os outros. Embora tente dar-lhe coisas naturais, às vezes não é fácil. No entanto, suponho que o leite materno tem sido o melhor medicamento natural que lhe tenho podido dar, além de que tenho o privilégio de poder trabalhar com o meu filho e estar com ele 24 horas por dia, deste modo evitando que ele apanhe as doenças que são comuns nas crianças que ficam em infantários.
Quanto às vacinas, cumpri o estabelecido pelo plano nacional de vacinação.

Em relação à vitamina B12 tens alguma atenção especial? Qual/quais?
Só descobri esta questão da vitamina b12 recentemente mas, como o André come iogurtes (proteínas animais), penso que não há problema nesse aspecto. Os veganos é que devem ter que tomar suplementos desta vitamina, uma vez que ela não é obtida senão através do sistema digestivo dos animais. Da mesma forma, acho (ainda não tenho dados sobre isto) que o leite materno deve fornecer esta vitamina ao bebé.

Em relação a outros nutrientes há mais algum que te preocupe em particular? Porquê e que soluções encontras?
Preocupo-me em usar leguminosas na nossa alimentação diária (grão, feijão, lentilhas) que são fontes de proteínas, ferro, cálcio, e, claro, uso vegetais e frutas diariamente e massas, batatas, cereais, frutos secos, enfim, tento fazer uma alimentação saudável, bem nutritiva, de acordo com os conhecimentos que vou adquirindo. Além disso, normalmente não uso sal nem açúcar na comida do André – embora adicione açúcar à cevada que bebo – e só mais recentemente dou coisas doces ao André quando eu também como. Contudo, ele próprio, na maior parte das vezes, recusa os alimentos que eu possa dar-lhe com sal ou açúcar adicionados, embora, claro, goste de sabores diferentes de vez em quando. Para que não fique privado dessas gulodices, opto por comprar chocolate sem açúcar (preto) ou geleia de milho, que são doces mais saudáveis.
Os alimentos já têm sal e açúcar naturalmente, nós não precisamos de adicionar, simplesmente fomos é acostumados desde pequenos a essa comida carregada desses condimentos nada saudáveis e, por isso, quando adultos, custa-nos a ganhar bons hábitos. Se uma criança fôr habituada desde que nasce a ter uma alimentação equilibrada, vai ser mais saudável e permanecer com esses hábitos pela sua vida fora. É tudo uma questão de hábito e de cultura. Para um Europeu é impensável comer carne de cão; para um Indiano hindu é um horror pensar sequer em comer carne de vaca, um Judeu não come carne de porco, etc, etc, e comer carne, ou sal, ou açúcar, são tudo questões de hábito, culturais, religiosas… que aprendemos na infância e que nos influenciam por toda a vida. Tenho a certeza de que, ao educar o meu filho sendo vegetariano, ele não vai ter vontade de comer carne quando crescer, assim como eu, quando comia carne, nunca tive vontade de comer cão ou gato só para saber a que sabe – só a ideia é repugnante.

A CRIANÇA NA SOCIEDADE

O teu filho frequenta alguma creche? E quando a criança for para a escola, para que ele tenha uma alimentação vegetariana o que pensas fazer?
O meu filho não frequenta nenhuma creche e, quando tiver que ir para a escola, provavelmente vou fazer o que faço hoje, que é preparar-lhe as refeições para levar. À medida que for crescendo, explicar-lhe-ei de onde vêm os alimentos e tentarei dar-lhe sempre uma educação que tenha em conta o respeito ao próximo e aos animais e a todo o planeta, que é a nossa casa em ponto grande.

O que acontecerá quando for convidado para uma festa de aniversário, onde haverá só praticamente comida não vegetariana, como por exemplo o bolo?
Já temos estado em eventos sociais e realmente não é fácil, até porque nem eu própria às vezes sei o que vou comer até lhe “espetar o dente”. Tento sempre ser discreta e algumas vezes encontro alguma pessoa com quem tenha mais confiança que sirva de “provador” e nos diga o que é que tem carne e o que não. Às vezes comemos bolos, de maneira que aí não temos grandes problemas em fazer uma excepção. As maiores dificuldades até nem são fora de casa, mas na própria família, onde temos que mostrar maior determinação e fazer-nos respeitar, principalmente com aqueles que são mais velhos que nós a quem, igualmente, devemos respeito. Deve ser porque sempre seremos pequeninos para eles! (E como provavelmente veremos sempre os nossos filhos, também!) De qualquer forma, com o tempo estas coisas vão-se resolvendo, à medida em que vamos demonstrando que estamos convictos do que fazemos e de que não fazemos mal a ninguém com a nossa escolha de vida, muito pelo contrário. Mesmo assim, até nem tenho grandes razões de queixa nesta área, ao contrário de outras pessoas vegetarianas que conheço.

O que farás se um dia quiser experimentar por exemplo um hambúrguer por curiosidade ou influência de outros?
Ficaria muito triste se o meu filho quisesse comer carne, mas, por outro lado, teria que ter confiança em mim própria como sua mãe, já que espero transmitir-lhe os valores em que acredito e que ele os siga, como filho, como homem e como ser humano, por serem valores de respeito e amor a si mesmo e ao próximo.

Consideras o teu filho é uma criança saudável e bem integrada no meio que o envolve? O vegetarianismo dificultou ou favoreceu isso de alguma forma?
Não há dúvida de que o meu filho é uma criança saudável. Contudo, mesmo ainda tão pequeno, já o noto diferente das outras crianças e as outras pessoas também o notam, sem eu dizer que somos isto ou aquilo. Ele é mais sossegado, mais concentrado, carinhoso, mas também é preciso ver que, além de sermos vegetarianos, toda a nossa vida é diferente do habitual nas outras pessoas. Ele não está num infantário e passa o dia comigo, dentro e fora de casa, pelo que ele não é “deseducado” em nenhum lado. Embora o meu filho esteja em contacto com muita gente diariamente, só eu o educo e não permito interferências nesse campo. É claro que é um grande esforço que faço para que isto aconteça assim – levo o André para todo o lado e só muito raramente o deixei em casa com a avó e foi por uma hora ou duas. Mas acredito que todo este esforço de agora será o meu descanso no futuro. Além disso, o que se faz por amor não custa!
Quando está com outras crianças, ele é sempre carinhoso e mais calmo e vejo que algumas crianças nem sequer entendem que ele lhes quer dar um miminho – ficam a olhar para ele como quem não está a entender o que se passa, quando não reagem agressivamente. Assim, é muito provável que este tipo de atitude, na sociedade em que vivemos, possa não ser vista da melhor forma e que ele possa vir a sofrer por haver gente que não respeita nada nem ninguém e que se ri de quem é “bonzinho”. Contudo, não há-de ser por isso que eu vou alterar o meu modo de ser ou a educação que dou ao meu filho. O amor sempre triunfa, mesmo que isso pareça mal aos olhos de muita gente. Acredito que, aos poucos, esta sociedade irá melhorando (como, aliás, vemos que tem vindo a melhorar) e cada vez mais se dará valor àquilo que realmente tem valor, tornando-se numa sociedade menos egoísta, mais humana, mais espiritual. O único conselho que posso dar a todos os pais – vegetarianos ou não – é que amem os seus filhos. Eu, como mãe, tenho aprendido muito com o meu filho e tenho melhorado como pessoa, como mulher e como mãe.

 

 

Entrevista a Dalva Silva, mãe vegetariana

Dalva Silva é vegetariana e mãe de Francisco Silva Y de Matos, um menino de 6 anos (em Março 2008). Dalva era ovo-lacto-vegetariana quando engravidou e adoptou esse tipo de alimentação também para o seu filho.

HÁBITOS DA MÃE DURANTE A GRAVIDEZ E AMAMENTAÇÃO

1- Durante a gravidez que tipo de alimentação fizeste?
Durante a gravidez continuei a fazer o mesmo tipo de alimentação que fazia anteriormente: ovo-lacto-vegetariana, apesar de em situações excepcionais ter comido peixe.

2- Houve alguma alteração em relação ao que costumas comer normalmente?
Não.

3- Tomaste algum tipo de suplementos?
Tomei ácido fólico.

4- Tiveste alguns cuidados especiais de saúde durante esse período?
Não.

5- Estiveste doente ou problemas de enjoo matinal ou de outro tipo?
Tive apenas enjoos entre os dois e os quatro meses.

6- Foste acompanhada por algum médico?
Sim, pelo meu ginecologista.

7- Tomaste algum medicamento? Que tipo e para quê?
Não.

8- Informaste-te em algum lado sobre que cuidados extras ou alterações de dieta deverias ter? Onde?
Sim. Numa médica homeopática.

9- Amamentaste o teu filho? Durante quanto tempo?
Amamentei até aos 9 meses.

10- Durante o período em que amamentaste tiveste alguns cuidados especiais com a tua alimentação ou saúde? Quais?
Tive os mesmos cuidados que tinha antes de estar grávida.

ALIMENTAÇÃO DO BÉBÉ

1- A criança sempre seguiu uma alimentação vegetariana?
Sim. Embora se ele pedir para provar algum tipo de alimento fora deste tipo de alimentação nós concordamos.

2- Quais os maiores obstáculos que encontraste ao teres optado por uma alimentação vegetariana para a teu filho? Como lidaste com isso?
Não tive nenhum obstáculo. Apenas a preocupação de alguns familiares, mas que não é nada impeditiva para que ele tenha esta alimentação.

3- Deste só o teu leite ao bebé, ou de algum outro tipo? Qual? Normal ou havia específico para bebés?
Dos nove aos doze meses dei um leite de farmácia, depois disso foi sempre leite de soja.

4- Com que idade começou a comer outro tipo de comida? Que género de coisas? Como foi feita a transição?
A partir dos 6 meses, como já estava no infantário começou a comer fruta cozida e sopa passada. Depois fui introduzindo os restantes alimentos, inclusive o tofu.

PRODUTOS VEGETARIANOS E SAÚDE

1- O teu filho é acompanhado por algum pediatra? Como reagem os médicos ao facto da criança ser vegetariana?
Sim. Constatam que é uma criança muito saudável, que raramente adoece.

2- A criança já esteve doente? Com quê? Como o curaste?
Teve uma conjuntivite quando tinha cerca de um ano. Como fomos com ele às urgências receitaram-lhe um antibiótico… Quando teve varicela, apenas o mantivemos em casa.

3- Que tipo de medicamentos geralmente a criança toma: naturais ou químicos? Porquê?
Tirando as duas situações anteriores, apenas teve pequenos episódios de febre, que passam por si. Nestas situações come à base de fruta e sumos naturais.

4- Em relação à vitamina B12 tens alguma atenção especial?
Não, uma vez que come ovos e derivados do leite.

5- Em relação a outros nutrientes há mais algum que te preocupe em particular?
Não. Ele é perfeitamente saudável. Come de uma forma variada, principalmente muita fruta.

A CRIANÇA NA SOCIEDADE

1- O teu filho frequenta alguma creche? E quando a criança for para a escola, para que ele tenha uma alimentação vegetariana o que pensas fazer?
O meu filho frequentou um colégio desde os quatro meses e meio e neste momento frequenta o 1º ano do ensino básico. Em ambos os sítios acordámos com a Direcção dos Colégios que ele levaria os alimentos “vegetarianos”, como por exemplo leite de soja, salsichas, tofu, seitan (já confeccionados), para “substituir” pela carne/peixe.

2- O que acontecerá quando for convidado para uma festa de aniversário, onde haverá só praticamente comida não vegetariana, como por exemplo o bolo?
Nestas situações ele próprio faz a selecção da comida. Come bolo de anos, se gostar.

3- O que farás se um dia quiser experimentar por exemplo um hambúrguer por curiosidade ou influência de outros?
Já aconteceu. Ele provou uma vez carne… fez tipo pastilha elástica e deitou fora. Sempre que ele pede para provar nós deixamos. Ser vegetariano para ele é uma coisa normal. E claro que se sente curiosidade não o vamos proibir, até porque ele próprio rejeita. Ele prova e nós tratamos sempre de explicar o que está a provar.

4- Consideras o teu filho é uma criança saudável e bem integrada no meio que o envolve? O vegetarianismo dificultou ou favoreceu isso de alguma forma?
Ele é perfeitamente saudável, tem muita energia. É bem aceite e diz com orgulho que é vegetariano!

5- Que sugestões e conselhos gostarias de dar a pais ou futuros pais vegetarianos?
Que sejam flexíveis e sobretudo respeitem a curiosidade das crianças em provar os alimentos. Sem imposições e grandes preocupações, pois, em última instância e a determinada altura da vida, a escolha será sempre delas.

 

 

Entrevista a Isabel Matos, mãe vegetariana

Isabel Matos é vegetariana e mãe de Alexandre Laia, de 5 anos (nasceu em Julho de 2003), e de mais duas adolescentes. É também adepta do parto natural (humanizado), da amamentação prolongada, da ecologia e do ensino doméstico, temas que destaca no seu blog A Escola é Bela http://escolabela.wordpress.com
O Centro Vegetariano entrevistou-a a propósito da sua experiência como mãe vegetariana.

HÁBITOS DA MÃE DURANTE A GRAVIDEZ E AMAMENTAÇÃO

1- Durante a gravidez do seu último filho que tipo de alimentação fez?

Alimentação ovo-lacto-vegetariana.

2- Houve alguma alteração em relação ao que costumava comer normalmente?

Não, na altura já era vegetariana e também já tinha deixado de beber café.

Mas nem sempre tive esta alimentação. Nas minhas duas gravidezes anteriores, por exemplo, não o era ainda.

Tornei-me vegetariana em 1999 (no final de 98 deixei de comer carne e no Verão de 99 retirei também o peixe e mariscos – encontrava-me nos Açores, juntamente com as minhas filhas, a participar num workshop delicioso, orientado pelo Robiyn, de integração com a Natureza e em contacto com os golfinhos, no alto mar (um dos muitos workshops que fazem parte do curso “Renaskigi – A Arte de Viver em Harmonia”). Foi uma experiência maravilhosa. Senti que nunca mais poderia comer qualquer tipo de animal!).

Fi-lo por razões éticas e de coerência comigo própria: “tornei-me vegetariana” quando descobri que era incoerência não conseguir matar os animais para comer nem sequer ver matá-los e, por outro lado, comê-los, delegando nos outros a responsabilidade dessa para mim tão abominável tarefa, ou seja, muito conveniente da minha parte! O momento dessa “clareza interna” foi em 1998, participando num dos primeiros workshops do Robiyn em Portugal e estava a falar-se de um assunto diferente, do que o tabaco nos faz a nós e aos outros (embora também já tivesse sido abordado o tema do vegetarianismo e muitos outros), mas como nunca fumei na vida (pelo menos nesta 🙂 ), a minha mente, intuição ou não sei bem o que foi, saltou para um outro “peso de consciência”… e tomei a decisão de passar a ser vegetariana.

Como já disse, deixei primeiro de comer carne e meses depois o peixe, mas não há qualquer problema em deixar de comer os dois ao mesmo tempo, conheço pessoas que o fizeram sem que daí adviesse qualquer problema para a sua saúde (pelo contrário, recupera-se logo a energia perdida em anos consecutivos de uma alimentação baseada em produtos de origem animal).

 

3- Tomou algum tipo de suplementos (como por exemplo B12, ácido fólico) durante a gravidez?

Não, fiz as análises pedidas pela médica e chegou-me a receitar Ferro, por apresentar valores que indicavam anemia (sempre me acontecera isso das outras duas vezes que estive grávida e na altura não era vegetariana), só que os valores continuavam os mesmos e ela pediu uma análise ao Ferro Sérico e constatou que o problema não era devido a uma deficiente ingestão de Ferro (tinha bastante a circular, muito acima dos valores de referência), mas sim a características específicas do meu organismo que dificultam a absorção.

4- Teve alguns cuidados especiais de saúde durante esse período?

Era seguida regularmente pela nossa médica de família, estava tudo dentro da normalidade, não tive grandes cuidados especiais.

5- Esteve doente ou teve problemas de enjoo matinal ou de outro tipo?

Tive algum enjoo matinal, houve bastantes dias que só me sentia bem comendo fruta.

6- Foi acompanhada por algum médico?

Sim, pela minha médica de família que foi sempre uma pessoa muito “aberta” e espectacular.

Coloquei-a sempre ao corrente de tudo, que éramos vegetarianos (eu, o pai e uma das irmãs – em casa, só compro e cozinho alimentos vegetarianos, mas como quando me tornei vegetariana as minhas filhas tinham 13 e 8 anos de idade, elas começaram por provar os meus “novos cozinhados”, mas continuavam a comer carne e peixe fora de casa; passado pouco tempo a mais velha aderiu por completo a este tipo de alimentação, a do meio ainda come carne e peixe fora de casa, quando lhe apetece), que pretendíamos optar por um parto “humanizado” e já tínhamos decidido deslocarmo-nos a Beniarbeig (em Espanha, perto de Valência) para que o Alexandre nascesse dentro de água, na Clínica Acuario.

A minha médica sempre concordou e sempre orientou as consultas tendo em conta as nossas escolhas.

Senti-me desde logo agradecida, pois conhecia outros casos de grávidas vegetarianas que não tiveram, por parte dos seus médicos, tal receptividade (quanto à alimentação, sobretudo).

7- Informou-se em algum lado sobre que cuidados extras ou alterações de dieta deveria ter?

Sim, alguma “literatura” sobre alimentação vegetariana para grávidas e mães a amamentar. Na altura ainda não conhecia o centro vegetariano. Consultei também alguns textos sobre o assunto, em espanhol (podem consultar-se em http://www.geocities.com/vegania)

8- Amamentou o seu filho? Durante quanto tempo?

Sim, sempre.

Alimentei-o exclusivamente a leite materno até aos sete meses, depois fui introduzindo frutas e sopas de legumes, nunca comeu papas de cereais, pois nunca gostou da consistência (nem hoje gosta ainda, não gosta nem de purés ou empadões e gosta das sopas a sentir bem os pedaços dos legumes e massa ou arroz na sopa), para além de que experimentei dar-lhe Cerélac e ele rejeitou (vomitava), foi quando comecei a desconfiar que ele era bastante sensível ao leite de vaca e então não voltei a dar-lhe nada que contivesse produtos lácteos, o que se veio a confirmar fazendo análises, ao ano e meio de idade (é muito sensível à caseína – proteína do leite).

Em relação ao tempo que durou a amamentação: ainda dura, hoje em dia, apenas um pouco à noite, sou adepta da amamentação prolongada e só deixarei quando ele deixar de pedir.

9- Durante o período em que amamentou teve alguns cuidados especiais com a sua alimentação ou saúde?

Sim. Tive que deixar de comer lacticínios, por causa da sensibilidade do Alexandre à caseína. Tornei-me ovo-vegetariana, embora sejam raras as vezes que coma ovo. E ainda bem, pois já tinha vontade de deixar, já tinha deixado de beber leite e de comer iogurtes, mas gostava muito de queijo e por isso não tinha ainda tomado a decisão. Assim, “com a ajuda” do Alexandre, foi mais fácil deixar por completo os lacticínios, o que se reflectiu logo numa melhoria de saúde (desceu o nível de colesterol para os valores óptimos, que não era demasiado alto, mas era alto e desceram os triglicéridos. Fiquei muito satisfeita). De resto, mantive sempre os cuidados básicos que tivera durante a gravidez, nunca mais bebi café, nem álcool, nem refrigerantes, embora nunca tivesse em qualquer época da minha vida abusado dessas substâncias.

ALIMENTAÇÃO DO BEBÉ

1- Quais os maiores obstáculos que encontrou ao ter optado por uma alimentação vegetariana para o seu filho? Como lidou com isso?

Posso considerar nunca ter sentido grandes obstáculos, fora termos começado por levá-lo ao serviço de pediatria do centro de saúde onde tinha sido seguida pela nossa médica de família e depois optarmos pelas consultas particulares de um pediatra mais familiarizado com a alimentação vegetariana, mas sobretudo pela questão das vacinas e por não usarmos medicamentos, antibióticos, etc., sendo que este médico, embora profissional na “medicina tradicional”, também está familiarizado com a homeopatia e, quando necessário, recomenda-nos esse tipo de tratamento (só foi necessário para tratamento de um eczema atópico, que desenvolveu desde os 5 meses por eu ingerir lacticínios e ele ser altamente sensível à caseína).

Também tivemos algumas dificuldades no início, com familiares e amigos, não propriamente em relação à alimentação vegetariana, mas em que eles percebessem que ele não podia comer nada que tivesse nem uma pinguinha de leite, natas, manteiga, queijo (“ah, mas este é queijo fresco!”), leite condensado (“tem só um pouquinho de leite, não é nada, não faz mal…” , até um dia chegarem mesmo a dizer que um preparado não tinha nada de produtos lácteos e o Alexandre, à primeira colher, inchar-lhe a glote, vomitar e desatar a coçar freneticamente o corpo, causando uma certa aflição aos presentes. Mas foi, como se costuma dizer, “remédio santo”, nunca mais tentaram que lhe déssemos leite de vaca ou derivados (há uma forte crença ainda, nas pessoas, que as crianças precisam de beber uma grande quantidade diária de leite para “fortalecer os ossos”, “ter belos dentes” e “crescerem bem!”).

Também já ouvi alguns comentários menos agradáveis, quanto à amamentação prolongada a leite materno, mas lido muito bem com isso, pois estou convicta da naturalidade do acto e que as pessoas se foram afastando dessa naturalidade pelas mais variadas razões. Hoje em dia, é cada vez maior o número de mães despertas para as recomendações da Organização Mundial de Saúde e penso que organizações já existentes em Portugal, como a Humpar e o serviço das Doulas, muito têm contribuído para uma maior divulgação e apoio nesse sentido.

2- Deu só o seu leite ao bebé, ou de algum outro tipo?

Só o meu leite. A partir dos três anos também começou a provar “leite de soja” que de vez em quando bebe (não bebe diariamente).

3- Com que idade começou a comer outro tipo de comida? Que género de coisas? Como foi feita a transição?

A partir dos sete meses começou a comer frutas e sopas de legumes (tentei as papas de cereais, sem leite, sem resultado, pois não gostava) e a partir do ano fui introduzindo o tofu, o seitan e as leguminosas. Embora não sendo sensível ao ovo, nunca gostou de ovo de nenhuma forma e, portanto é o que se usa chamar de “vegetariano puro”.

PRODUTOS VEGETARIANOS E SAÚDE

1- O seu filho é acompanhado por algum pediatra? Como reagem os médicos ao facto da criança ser vegetariana?

Sim, o pediatra do nosso filho foi escolhido sob recomendação de amigos por ser uma pessoa habituada a lidar com pais e crianças com alimentação macrobiótica e vegetariana. Disse-nos que era da opinião de que a criança deveria comer peixe, mas não insistiu para que modificássemos a alimentação.

Primeiro experimentámos os pediatras do centro de saúde que não tiveram a mesma sensibilidade e respeito demonstrados pela nossa médica de família, pelo que mudámos para este pediatra, a título particular, mas que trabalha também num hospital do Estado.

Tem sido sempre uma criança saudável (para além das consultas de rotina, fomos uma vez ao seu médico por ter tido uma tosse forte e prolongada). Não estou a contar com o eczema atópico que tinha a ver com a sua sensibilidade à caseína, ao tratamento que fazem na zona onde vivemos à água da torneira e aos ácaros.

2- Em relação à vitamina B12 tem alguma atenção especial? Qual/quais?

Sim e não. Compro de vez em quando vitamina B12 em forma de pastilhas (suplemento alimentar vegetariano), mais para mim, que não bebo bebidas de soja com B12 adicionada, nem cereais (não gosto muito). O Alexandre chegou a tomar esse suplemento, ainda mais pequeno, mas entretanto deixou de gostar e não insisto, pois ele bebe algumas vezes essas bebidas de soja com B12 adicionada e come cereais também com B12 adicionada (desde que não sejam na consistência de papa!). Não tem havido qualquer problema de carência de B12.

Foi ao consultar várias vezes o site do Centro Vegetariano que percebi que praticamente não há alimentos de origem vegetal que proporcionem as quantidades adequadas dessa vitamina e após ter deixado de ingerir lacticínios, as primeiras análises que fiz revelaram valores baixos (embora nada preocupantes) dessa vitamina, daí o ter começado a prestar atenção regularmente.

3- Em relação a outros nutrientes há mais algum que a preocupe em particular? Porquê e que soluções encontra?

Não, nós fazemos uma alimentação equilibrada, rica em legumes e frutas e frutos secos (para além, obviamente dos cereais, leguminosas, tofu, seitan…).

A CRIANÇA NA SOCIEDADE

1- Considera o seu filho uma criança saudável e bem integrada no meio que o envolve? O vegetarianismo dificultou ou favoreceu isso de alguma forma?

Considero. Nós temos algumas particularidades, como família e quanto ao nosso “meio envolvente”, que facilitam a integração:

– Cá em casa, somos bastante “homogéneos” quanto a estas “questões básicas”; quero com isto dizer que estamos todos de acordo quanto ao vegetarianismo e demais filosofias e práticas de vida.

– Optámos pelo “ensino doméstico”, o Alexandre nunca frequentou qualquer creche, jardim infantil, pré-primária e pretendemos continuar a não ser que algum dia demonstre interesse e vontade em frequentar uma escola. Neste contexto, nem sequer foi preciso procurar escolas que oferecessem alimentação vegetariana (também as há). Isto não significa que o Alexandre não tenha contacto com outras crianças, obviamente (primos, vizinhos, filhos dos amigos, crianças que brincam nos parques infantis que frequentamos, que se encontram nos eventos direccionados a crianças, nas bibliotecas, nos espectáculos infantis…). Por outro lado, foi uma agradável surpresa descobrir que há mais famílias dedicadas ao “homeschooling”, em Portugal, do que eu inicialmente pensava (o mesmo me aconteceu em relação ao vegetarianismo!)

– Temos muitos amigos vegetarianos com filhos vegetarianos e alguns familiares (como a avó, uns tios, um priminho também pequeno, o que facilita muito grande parte das festas, reuniões e demais eventos sociais que impliquem “comida”.

Quando digo que temos muitos amigos vegetarianos, são mesmo um número considerável, então o Alexandre nunca se sentiu uma “espécie rara”, digamos (parece-me que ele até tem é a noção que os não vegetarianos são uma minoria!), terá tempo de descobrir que não é bem assim (quer dizer, se formos falar em relação ao Mundo, é mesmo verdade, há mais vegetarianos do que não vegetarianos!), ou quem sabe, até lá, crescerão exponencialmente os despertares para a consciência da possibilidade de um mundo mais pacífico.

– Estes três itens anteriores (para além de outros factores, claro) têm proporcionado ao Alexandre uma estrutura emocional e individual que facilita a integração.

2- O que acontecerá quando for convidado para uma festa de aniversário, onde haverá só praticamente comida não vegetariana?

Já tem acontecido várias vezes. Nem sequer precisamos de estar a vigiar o que ele come. O Alexandre só tira, para comer, as coisas que já conhece e gosta, vai direitinho aos cajus e aos amendoins (quando há, mas até costuma haver…), às batatas fritas. De resto pouco come, nas festas de crianças, a não ser uma ou outra guloseima (se houver chupas e vem perguntar-nos se têm leite). Não sente nenhuma vontade de comer o que não conhece. A única coisa que prestamos mais atenção é que, como nas festas cá de casa às vezes fazemos gelatina de origem vegetal, que ele gosta, às vezes poderá confundir com a outra gelatina de origem animal (nunca aconteceu).

Mesmo nas festas com comida vegetariana só come o que está habituado a comer e gosta (ele é muito selectivo com os sabores e as consistências, tem os seus alimentos preferidos; neste aspecto já temos uma experiência parecida com a irmã do meio, se olham para uma coisa e não lhes agrada, nem sequer querem experimentar e são muito fiéis a determinados sabores).

3- O que fará se um dia quiser experimentar por exemplo um hambúrguer por curiosidade ou influência de outros?

Pelo que contei acima não me parece muito, mas se acontecer, experimenta. Isso ocorreu com um sobrinho meu, dois anos mais velho que o Alexandre, penso que tinha ele a idade que o Alexandre tem hoje: experimentou, embora os pais alertassem que não lhe iria fazer bem, não gostou muito, mas para não desistir, lá comeu, um pouco a custo. Ficou com umas dores de barriga tais que só dizia “eu nunca mais quero comer carne”…

4- Que sugestões e conselhos gostaria de dar a pais ou futuros pais vegetarianos?

Apenas para aqueles que tiverem algumas dúvidas ainda em relação ao crescimento saudável das crianças vegetarianas, gostaria de dizer que é bom documentarem-se sobre o assunto e aconselharem-se com profissionais na área do vegetarianismo. Hoje em dia já vai havendo alguns. E o site do Centro Vegetariano é uma boa fonte de informação! Também para observarem vários exemplos de crianças que “já nasceram vegetarianas”. Cada criança tem as suas características específicas, é bom conhecer vários exemplos. O Centro Vegetariano também tem contribuído muito para esta divulgação.

Conhecer um pouco mais e saber das já muitas famílias vegetarianas no nosso país ajuda muito a transformar o mito de que a ingestão de carne e peixe é necessária à nossa sobrevivência e ao bom desenvolvimento das crianças.

 

Fonte: Centro Vegetariano

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